8.12.05

9/11 - do World Trade Center à World Wide Web

>> 9/11 – do World Trade Center à World Wide Web

Tal como refere Braudel[1], o facto de o simples mencionar de uma data acarretar consigo já toda uma carga simbólica, ao ponto de dispensar qualquer referÊncia adicional por forma a assegurar o correcto entender do acontecimento a que se refere, revela já o seu potencial significado enquanto efeméride ou marco histórico inquestionável.

Mais do que uma data, o 11 de Setembro, posteriormente reforçado pelo 11 de Março, trouxe consigo o despertar abrupto e a reflexão forçada acerca de algumas das mais profundas mudanças que se têm vindo a operar na sociedade e no mundo, desde o advento do início da globalização. As distâncias encurtaram-se, as trocas deslocalizaram-se e as relações reformularam-se, tanto no âmbito pessoal, como no transnacional, evoluindo ao ritmo célere da busca da rapidez e do simultâneo, pedra de toque da contemporaneidade.

O realismo político cedeu temporáriamente –e no mundo ocidental – lugar a um novo fôlego de esperança num liberalismo político, alimentado pelo inquestionável alargamento dos actores políticos a agentes não tradicionais, como uma emergente sociedade civil transnacional, mais reivindicativa e empowered, pelo acesso à informação e uso das NTIC.

A política exclusivamente internacional – entre nações, entre estados soberanos - pavimentada pelas auto-estradas da informação e comunicação tornou-se global, e a arena de agentes tradicionais tornou-se do tamanho desse mesmo globo, alargando-se a ONG’S, associações transnacionais, supranacionais ou regionais.

Da U.E. à N.A.T.O, do Greenpeace à Al-Qaeda, todos se tornam actores, formais ou informais, numa mesma sociedade que se retribaliza, tal como previa McLuhan, numa aldeia global. As “regras” implícitas que a governam e sustentam dificilmente poderão ser, portanto, as mesmas. Seja no plano social, económico, político ou até militar e terrorista.

O que nos leva de encontro à posição de Ignacio Ramonet, que numa das edições do Le Monde Diplomatique póstumas à referida data, defendia que o mundo, de facto, não tinha mudado naquele dia. A única mudança que se tinha, efectivamente, operado, ocorrer ao nível da nossa – e aqui leia-se ocidentais – percepção do mundo. Da nossa mundividência. Porque a mudança que se operara no sentido da retribalização numa aldeia global, acompanhada de todas as outras nos campos político, social, económico etc., já se vinham a desenrolar ao longo do tempo, desde o acima referido advento da era global.

E se, o 11 de Setembro, constitui de facto, conforme acima referi, um momento de “despertar abrupto” para uma “reflexão forçada”, quatro anos depois, essa necessidade mantém-se em diversos sectores da sociedade. Sobretudo no que toca aos novos actores políticos e formas de confronto e reivindicação, entre os quais podemos incluir grupos como a Al Qaeda de Bin Laden. Porque, ainda que o fenómeno do chamado “terrorismo em rede” ou mesmo “netwars”[2] não se possa, a meu ver, considerar ter emergido após o “9/11”, correspondendo antes esta data a um momento de confronto inevitável com a realidade da sua existência prévia, dada a sua natureza furtiva, estrutura não formal e propósitos ilegais, permanece ainda de difícil compreensão.

Compreensão sem a qual a definição de linhas de acção de prevenção e antecipação adequadas, de readaptação dos estados formais a esta “inimigo” não formal, não poderá decorrer no sentido da prossecução de resultados óptimos. Compreensão essa que urge sobretudo após o impacto e “sucesso” – do ponto de visa dos perpretadores - alcançados pelos acontecimentos ocorridos em datas como o 11 de Setembro e o 11 de Março, factores que, juntamente com a sua ampla cobertura mediática – assegurada em grande parte pela sua adequação aos critérios orientadores de agendamento do sector – só podem contribuir para a reprodução dos modelos de organização que estiveram na sua origem, aumentando o número de actores deste tipo no panorama político mundial.

Hoje, mais do que nunca, o terrorismo está, de facto, “retribalizado” – empregando novamente o termo de McLuhan – readaptando à contemporaneidade da globalizada era da informação, que coloca à sua disposição a facilidade de acesso à informação e de comunicação deslocalizada e atemporal, a capacidade agregadora e critério de unidade de accção e ideológica da “tribo”[3]. Mais do que guerrilhas ou núcleos terroristas individuais ou desorganizados, estamos hoje, e no caso de organizações como a Al Qaeda, perante aquilo que se poderá talvez optar por chamar “tribos em rede”.

Mas o que é a tribo?

A tribo corresponde à mais antiga e bem sucedida forma de organização alguma vez definida, segundo James Boyd, um dos principais teóricos militares. Tendo por objectivo criar um sentido de identidade social, fortalece a capacidade de sobrevivência e habilidade de acção não só do indivíduo como do todo. Variando no que toca à natureza da sua origem, determinada pela natureza dos laços que as unem – tradicionais:laços familiares/mitologia; tribos fabricadas:promovem a irmandade e criam a sua própria mitologia – orgânicamente são tradicionalmente caracterizadas em três tipos.

  1. equalitárias – todos os membros da tribo são semelhantes, sendo a ordem mantida com base no respeito mútuo, rituais e honra
  2. segmentárias – cada secção da tribo é similar às outras, podendo operar de forma autónoma entre si, se necessário
  3. acéfalas – não existe uma hierarquia, sendo os idosos, “poderosos” ou outros encarados mais como conselheiros ou modelos a seguir do que como líderes

Comum a todas elas, no entanto, e segundo o teórico referido, bem como na opinião de analistas contemporâneos, é o facto de as tribos, uma vez envolvidas em conflitos – que têm na sua origem questões de honra, respeito ou afirmação, desempenhando a religião, em muitos dos casos, um papel importante – lutarem não de forma coesa, como um todo, mas de modo segmentado. Cada segmento, ou célula, actua de forma autónoma de modo a potenciar o efeito de ataque sobre o oponente recorrendo, regra geral, a tácticas furtivas, como embuscadas e “raides”, procurando potenciar sempre o efeito surpresa.

Posto isto, e tendo em conta que “we are facing an emerging mode of conflict (and crime) at societal levels, short of traditional military warfare, in which the protagonists use network forms of organization and related doctrines, strategies and technologies attuned to the information age [and that] these protagonists are likely to consist of dispersed organizations, acting like coordinated tribes who communicate, coordinate and conduct their campaigns in an internetted manner”, e que entre estes novos protagonistas “nonstate or even stateless”[4] podemos incluir não só activistas de ONG’s, por exemplo, como também grupos criminosos e terroristas, creio que, e perante as três categorias caracterizadoras das tribos existentes, será necessário criar uma nova classificação organizacional para o que o relatório de 2000 do U.S. State Department’s Office of the Coordinator for Counterterrorism[5] definia como “trend into the shift from well-organized localized groups supported by state sponsors to loosely organized, international networks of terrorists”.

O autor de “Networked tribes” propõe-nos, no seu artigo, da adopção do termo homónimo, com base na rede como nova categoria organizacional. Segundo o mesmo, o tribalismo que enfrentamos hoje em dia resulta de uma combinação dos antigos enquadramentos mentais das tribos, com os modernos sistemas de pensamento (economia global, redes, comunicações etc). Uma combinação a seu ver perigosa e reforçada pelas forças da globalização – que defende, tal como eu fiz acima, ter vindo nivelar a arena de competição entre tribos e estados.

No entanto, e se esta sua análise me parece correcta, bem como a sua ressalva, em jeito de aviso, acerca do poder global e sucesso económico alcançado por estas redes – este último em grande parte conseguido pelo recurso à especulação bolsista e outros mecanismos característicos da economia liberal como nova forma de financiamento por parte destas tribos em rede – creio que, tal como referem Ronfeldt e Arquilla[6], e ainda que o aspecto orgânico seja um dos critérios mais determinantes no que toca a esta nova forma de tribos, o critério criado para as caracterizar deve ir para além disso, uma vez que estas são determinadas também pela sua particularidade no que toca a outros métodos de análise das formas de organização social.

Ou seja, para estes analistas, as redes ou “tribos em rede” só são, de facto, redes organizacionais, quando observam também outros critérios ou características. É que, “ainda que a guerra em rede [netwar] seja, principalmente, uma dinâmica organizacional, requer também uma dinâmica social e tecnológica apropriadas, de modo a funcionar correctamente”[7]. Como tal, no analisar das “networked tribes” ou da “netwar” e seus intervenientes, alertam para a necessidade de utilizar como grelha:

  1. critérios da social network analysis – disciplina que defende que as relações sociais bem como organizacionais devem ser analisadas como redes, ou seja, como um conjunto de actores (nodes) e laços (links) cujas relações apresentam um padrão estrutural. Os principais padrões considerados por este método de análise são: hub, estrela e circular/roda, entre outras, como centro/periferia, “all channel” ou “spider’s web”

  • o factor determinante de “poder” e “importância” nesta perspectiva depende portanto mais das relações interpessoais (capital social) do que dos “atributos” ou “características/qualidades” individuais de cada um dos membros da rede (capital humano)

  1. critérios de organizational network analysis utiliza muitos mecanismo e métodos do modelo de análise anterior mas utilizando uma abordagem diferente, ao propor, em muitos casos, a rede como uma forma distinta de organização que tem vindo a ganahr força devido aos avanços das comunicações. Enfatiza não só a importância que os valores e normas desempenham na performance e funcionamento das redes e noutras formas de organização, mas também, em alguns autores, como Castells, o facto de as redes estarem a proliferar e ganhar forma como tipo específico de organização.

Tendo esta análise bilateral em conta, os mesmos autores propõem assim uma outra grelha de análise composta de cinco níveis, essenciais para o assegurar do funcionamento óptimo de qualquer tipo de rede, e que posteriormente aplicam, precisamente, à organização responsável pelo 11 de Setembro: a Al Qaeda [vide analise]. São eles:

  1. nível organizacional – o “design” orgânico e organizacional da rede
  2. nível narrativo – a “história” que essa rede conta
  3. nível doutrinário – as estratégias e métodos de colaboração
  4. nível tecnológico – os sistemas de informação usados
  5. nível social – os laços pessoais que asseguram lealdade e confiança

Método de análise este através da qual os autores procuram criar um mecanismo que assegure uma real compreensão global e transversal das “tribos em rede”, actores o fenómeno ao que dão o nome de “netwar”. Compreensão que, conforme inicialmente referido, e também de acordo com os autores, se torna cada vez mais premente, dado que “practice has been outrunning theory in one are after another where netwar is taking hold”. E de modo a assegurar aos actores tradicionais a capacidade de se readaptarem e fazerem frentes ao que os autores denominam “lado negro” da “netwar” – fenómenos como as tribos em rede de cariz terrorista, por exemplo, âmbito no qual se enquadram a Al Qaeda e o 11 de Setembro – urge, antes de mais, que a teoria e o formal – os estados e as suas formas de actuação – acompanhem, até para quem sabe, mais tarde, poderem antecipar, o que entre as tribos em rede já é hoje prática e método corrente e vulgar.

No entanto, convém lembrar, tal como fazem Ronfeldt e Arquilla que este fenómeno da “guerra em rede”, poderá trazer também aspectos positivos, no sentido do alargamento dos actores políticos também a grupos como a sociedade civil, no sentido do empowerment dos cidadãos. Empowerment e alargamento esses que, quando orientados para contestações ditas “positivas”, como exposição de problemas ecológicos, etc, poderão ser determinantes para o melhorar da sociedade e essenciais À própria essência da democracia, pedra de toque dos valores ocidentais.

Ou seja, aqui, tal como na referência de Castells à Internet, convém relembrar que a tecnologia [tal como a rede enquanto forma de organização social] não é boa nem má per se, dependendo o seu carácter benigno ou maligno do uso que a Humanidade dela faça.



[1]

[2] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”

[3] “networked tribes” conforme consultado a 4 de Dezembro em http://globalguerrillas.typepad.com

[4] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”

[5] “Patterns of Global Terrorism:1999”, U.S. State Department’s Office of the Coordinator for Counterterrorism, Abril de 2000

[6] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”

[7] op cit

2.12.05

Esta Criativa Idade| Poderá haver criatividade a mais?

>> Esta Criativa Idade

Dizer que no mundo se operou uma mudança de paradigma no sentido de uma globalizada era de informação e conhecimento onde o mundo se une em rede, a uma escala de proporções e repercurssões sociais talvez inimigináveis até para Vincent Cerf, “pai da Internet”, é já hoje um quase clichet. Mais do que um truísmo aquém do que sabemos hoje real pela mera observação e vivência quotidiana, ficam as projecções McLhuanianas de uma Idade electrónica sem tempo nem espaço, reaproximada por novas formas de sociabilidade no contexto de uma aldeia global.

Para trás fica uma Era Industrial, sob o signo da força física do trabalhador e dos critérios de quantificabilidade e massa. Para a frente a Idade que hoje reconhecemos em nosso redor, regida pelo Conhecimento enquanto critério de criação de valor, inaleanável na sua relação com oreconhecimento da importância das capacidades intelectuais e criativas do Homem, em detrimento da força física.

A criatividade torna-se assim, lado a lado com o conhecimento, num dos paradigmas de uma sociedade inter-cultural e inter-ligada que se “desenvolve a uma velocidade estonteante”[1], fazendo-nos despertar, todos os dias, várias vezes ao dia, para uma nova pequena revolução, potenciada pela inovação tecnológica, alimentada pela capacidade intrínseca humana de criar. Mas, e ainda que esta seja, de facto “a maior e mais grandiosa revolução que a Humanidade já alguma vez experenciou”[2], até que ponto será sustentável? Poderá o actual e progressivamente crescente ênfase colocado na criatividade – combustível desta revolução constante em que se tornou a sociedade da informação e do conhecimento – revelar-se, a partir de determinado ponto, não uma mais valia sócio-empresarial, mas um factor de risco, ao impossibilitar a estabilidade – critério essencial de preservação e sobrevivência das empresas e da própria sociedade?

Ou seja, poderá, de facto, haver criatividade a mais?

E sob a aparente simplicidade desta questão inúmeras outras surgem inexoravelmente associadas, caso sejamos capazes de delinear-lhe uma resposta afirmativa. Como, por exemplo: se sim, onde e como é que se traça o limite? Isto porque, se reflectirmos de uma forma genérica sobre o modo de funcionamento da sociedade, dos seus sistemas e dos seus ciclos de evolução, verificamos que, regra geral, mesmo os mais liberais dos modelos, assentam de uma forma ou de outra, em mecanismos de regulamentação. Ou seja, de uma forma ou de outra, possuem limites ou formas de garantir a sua preservação e bom funcionamento, regra geral auto-impostas ou até praticamente invisíveis, Senão, lembremos a “mão invisível”, segredo da sustentabilidade do modelo de liberalismo económico de Adam Smith, ou as próprias propostas da sociologia acerca do funcionamento da Sociedade de um modo genérico, dotada de papéis, normas e regras sociais implícitas actuando como mecanismos auto-reguladores. E penso ser esta uma das questões de fundo “d’esta Criativa Idade” em que vivemos: da sua sustentabilidade sem regulação, a da possibilidade de auto-regulação. Questões que necessariamente se colocam, portanto, também, à Criatividade, enquanto motor e valor-base da sociedade actual.

Mais do que uma “commodity” essencial à competitividade empresarial e laboral, tal como é actualmente considerada por muitos entrepreneurs e académicos[3], poderá a criatividade tornar-se, se desgregrada, ou desmedida, um handicap? Se a sua importância nos actuais modelos económicos de inovação e sucesso é tida como inquestionável, o certo é que o conceito “criatividade” nem sempre foi entendido, historicamente, do mesmo modo.

Se atentarmos na sua evolução cronológica [quadro 1] podemos detectar uma sucessão de paradigmas, desenhados num crescendo de importância do conceito, crescendo esse impulsionado pelo dealbar de uma era que já não se pauta pela massificação e repetitibilidade mas pela capacidade de criar valor através de estratégias de diferenciação[4] – via única para garantir a competitividade no actual contexto competitivo. A julgar pela forma como estes se sucedem entre si, somos levados a pelo menos colocar a hipótese de que o actual modelo empresarial largamente assente na criatividade como commodity dará, inexoravelmente, origem a novas formas de olhar a criatividade. A questão reside, portanto, em se seremos – enquanto sociedade e economia - capazes de antecipar essa necessidade de evolução para um novo modelo, por forma a evitar a provável e inesperada ruptura a que a crescente “crença” na criatividade enquanto uma nova panaceia – um pouco à semelhança, segundo me parece, do que se passou com a Internet nos seus primórdios – nos poderá levar.

Se, por um lado, é certo que “every product, day by day, inch by inch, is creeping toward obsolescence”, bem como que, consequentemente, “the only hope of business immortality lies in constant improvement and a constant search for the new and better”[5]; este investimento e fé na criatividade deve ser “temperado” por algumas outras regras do management por forma a assegurar a utilidade dos recursos orientados para a criatividade. Ou seja, por forma a assegurar que, mais do que criatividade no seu sentido de uma capacidade que nos permite encontrar novas formas de utilizar recursos, estamos perante o desenvolver de capacidade de inovação. Esta última implicando não só a invenção per se mas também o facto de esta ir, de facto, de encontro a necessidades reais e concretas das pessoas e do mercado, e logo dotada de potencial comercial – e de sucesso – real.

Seja qual for a área de actividade – excepção feita, talvez ao gesto desinteressado do artista que cria sem outro intuito que o da auto-gratificação – devem ser tidos em conta critérios que assegurem a sua real utilidade e usabilidade.

Tomemos por exemplo a área do Web Design. Uma das regras básicas da construção de um site consiste, precisamente, na sua usabilidade. No facto de ser, ou não “user friendly”. Se inicialmente, nesta área, se assistiu a exercícios criativos mais desregrados, no sentido de não contemplarem os critérios de usabilidade, acessibilidae, de capacidade de compreensão das suas finalidades por parte do utilizador, este sector, bem como o da criação do software e o dos interfaces, rege-se actualmente pelas orientações propostas pela disciplina que dá pelo nome de HCI – Human Computer Interaction – e que tem precisamente como objectivo, ao estudar a forma como o Homem interage com a tecnologia, fornecer orientações aos seus criadores por forma a permitir que estes criem produtos e serviços de utilização mais simples e intuitiva. O exercício da criatividade nestes sectores passou assim a ser balanceado pelos chamados critérios de usabilidade. E penso que deve ser este o rumo a seguir pelos outros sectores de actividade da sociedade contemporânea.

Ou seja, quero com isto dizer, que a criatividade deve ser orientada. Nunca limitada, mas apenas delimitada. Por forma a assegurar que ao invés de um quotidiano de pequenas revoluções onde o ritmo de adaptação se poderá acabar por tornar incomportável não só para as faculdades e sentidos humanos mas também para as próprias empresas – o sector dos videojogos é disso exemplo, defendendo alguns dos seus principais criadores que as origens da dificuldade em criar novos jogos residem essencialmente no facto de a tecnologia utilizada mudar cada vez mais rapidamente[6] - passemos a habitar uma era de inovação pautada pela evolução sustentada e sustentável em todos os seus aspectos.

Caso contrário, poderemos vir a comprovar uma teoria de Einstein acerca, não da relatividade, mas da criatividade, que compara a mudança tecnológica a um machado nas mãos de um criminoso patológico.


___________________________________________________________________

Quadro 1 – evolução do conceito e modelos de “criatividade”

1. Gregos – cerca de 500 BC[7]

æ Inspiração (do grego “Deus dentro”) para a originalidade tinha origem nos deuses, sendo a capacidade criativa do Homem “mediada” e supervisionada por um tipo específico de criaturas divinas, as Musas

æ Tal como escreveu Sócrates, a inspiração para se ser criativo era encarada como algo que ocorria quando a pessoas não estava no seu estado racional

æ Inspiração associada a uma entidade externa – os deuses e as musas – e aos sentidos, ao invés de à razão

2. Século XIX[8]

æ Com o triunfo do racionalismo, começa-se a encarar a criatividade como algo que vem não do exterior (os deuses/musas, no caso dos Gregos) mas sim do interior do ser humano, de uma parte desconhecida da mente

æ Parte do cérebro a que era associada a criatividade foi moldada muito à imagem do Continente Africano, sendo denominada “man’s inner Africa”, dado ser, tal como este, à época, vastamente desconhecida

æ Era associada à componente emocional do Homem – dado que a Razão e racionalidade não pareciam produzir pensamentos originais – acreditando-se que o encetar de comportamentos de certo modo marginais, excêntricos, “criativos”, que quebravam as rígidas convenções sociais do final do século XIX, estavam directamente relacionados com uma maior capacidade criativa

3. Modelo de Graham Walls[9] - princípio séc. XX

æ Preparação – incubação – iluminação – verificação

æ Através deste modelo o reformador Graham Walls “aproximou-se mais da génese do processo criativo”, procurando descrevê-lo como algo já não associado às emoções mas ao campo de especialização da pessoa em causa

æ Ou seja, as pessoas têm que possuir “preparação”, ou seja conhecimento num determinado campo, antes de poderem “ter ideias” relacionadas com essa área de especialização[10]

4. Modelo CPS – Osborn e Parnes1963 [11]

æ Originalmente desenvolvido pelo fundador da Creative Education Foundation, Alex Osborn, foi posteriormente desenvolvido pelo seu sucessor na presidência dessa mesma fundação, Sidney Parnes

æ o modelo possui entre cinco a seis passos – sendo um deles um passo preliminar que por vezes é acrescentado – que guiam o processo criativo e que são interdependentes

OF

FF

PF

IF

SF

AF







Objective
Finding

Fact
Finding

Problem
Finding

Idea
Finding

Solution
Finding

Acceptance
Finding

Identify Goal, Wish, Challenge

Gather Data

Clarify the Problem

Generate Ideas

Select & Strengthen Solutions

Plan for Action

What is the goal, wish, or challenge upon which you want to work?

What's the situation or background? What are all the facts, questions, data, feelings that are involved

What is the problem that really needs to be focuses on? What is the concern that really needs to be addressed?

What are all the possible solutions for how to solve the problem?

How can you strengthen the solution? How can you select the solutions to know which one will work best?

What are all the action steps that need to take place in order to implement your solution?

Fonte: brochura CPSI de 1998

5. Actualmente – criatividade como “commodity”



[1] Resolução 56/183 de Dezembro de 2003 da Assembleia Geral das Nações Unidas

[2] op cit

[3] COOK, Jeremy, “Creativity as Commodity”, conforme consultado a 14 de Novembro de 2004 em http://www.insideworship.com/library/articles2245/1/Creativity_As_commodity.aspx

[4] PORTER. Michael

[5] THOMAS, W. Jerry, “New products”, conforme consultado em 16 de Novembro de 2005 em http://www.decisionanalyst.com

[6] SPECTOR, Warren, citado por THOMPSON, Clive, em “Maybe video games are too creative”, conforme consultado em 10 de Novembro de 2005

[7] WILLIAMS, Robert e STOCMYER, John, “Unleashing the Right Side of the Brain - the LARC Creativity Program”

[8] op cit

[9] op cit

[10] WALLS, Graham, “The Art of Thought”

[11] DAVID, Gary, “Creativity is Forever”, 1998, Kendall Hunt

26.11.05

"A minha namorada é um computador"

Para a reflexão proposta sobre o tema "Internet e novos relacionamentos", optei esta semana não por proceder a uma análise, que ainda que fundamentada, é sempre a minha opinião, em menor ou menor grau; mas antes por adoptar uma linha de escrita mais jornalística. Fui, assim, à procura de casais que se tivessem conhecido através da Internet. E procurei contar um pouco da sua história. Ponto de partida para a reflexão pessoal que cada um queira fazer acerca deste tema.



"A minha namorada é um computador"

Não tem nome, tem nickname. Não fala, tecla. Não beija, chora, abraça ou ri. Prefere :* ,( , [] e :). Limites impostos pelos muitos quilómetros de distância. Palavras, ou neste caso, contacto físico para quê? É um namoro virtual.

Amores Virtu@is: casos reais

Maria, 26 anos, professora de Biologia, casada há ano e meio. Sara, 18 anos, estudante, namora há 7 meses. Se uma é brasileira e a outra portuguesa, o que é que podem ter em comum? A resposta é simples: a Internet.

Ou, melhor dizendo, o facto de ambas terem conhecido a sua “cara-metade” na rede. Alex e Paulo, respectivamente.

Enquanto o primeiro superou definitivamente o problema que é a distância ao emigrar para o outro lado do Atlântico por causa de uma baiana com quem “teclava” há mais de um ano, o segundo ainda não sabe bem como resolvê-lo.

À falta de abraços e trocas de olhares, restam os e-mails que acabaram, inevitavelmente e após o primeiro encontro “ao vivo” por dar lugar a avultadas contas de telefone. Ou não morasse a Sara em Lisboa e o Paulo no Algarve.

Mas estes são apenas dois exemplos de um número cada vez maior de “amores virtuais”, que acabam ou não por se tornar casos reais.


O mundo à distância de um click

Se há quatro, sete ou dez anos atrás parecia impensável, para não dizer impossível, realizar transacções bancárias, encomendar comida, livros e todo o tipo de coisas e objectos sem abandonarmos o conforto do nosso sofá, hoje nada parece mais “natural”. Habituámo-nos a ter o mundo inteiro ali, a espreitar pelo ecrã como uma paisagem espreita por uma janela.

Numa época em que psicólogos e analistas parecem unânimes em afirmar que a vida se torna cada vez mais acelerada, e as pessoas mais apressadas e anti-sociais, sobretudo nas grandes cidades, o computador apresenta-se como a fórmula mágica que vem simplificar e facilitar tudo. Até as relações.

Pelo preço de uma linha telefónica local torna-se possível, à distância, trocar dados pessoais com utilizadores de todo o mundo sem fazer nenhum tipo de esforço. Fisicamente ocultas e protegidas por trás do anonimato de um nickname, as pessoas tornam-se, segundo conclusões de estudos levados a cabo nesta área, muito mais livres, dando asas a sentimentos, ideias e opiniões socialmente reprimidas. Basicamente é a satisfação pura, simples, cómoda e praticamente gratuita de aspectos emocionais.

De tal modo que existe até quem já opte pelo virtual em detrimento do real, como é o caso do Rodrigo. Para este estudante de Ciências da Computação de 23 anos, os programas de conversação em tempo real do género mIRC, Messenger ou ICQ já não são nenhum mistério.

Três anos e pelo menos duas horas por dia on-line encarregaram-se de lhe revelar todos os segredos da vida na rede, da qual já não abdica. A explicação deve-se, segundo “Marado”, nick pelo qual todos o conhecem na Internet, ao facto de ser bastante tímido, e do computador lhe permitir ultrapassar isso mesmo. “Atrás do monitor é tudo mais fácil”, afirma prontamente.

Será?



Nem tudo o que parece é

Quem se dispõe a entrar num Chat, deve estar preparado para não acreditar em tudo que lê ou vê, avisam os “peritos” na matéria. Deve estar pronto para jogar “às escondidas” com pessoas sem rosto das quais se conhece apenas um nome fictício.

Entrar num canal pela primeira vez é dar um passo no desconhecido, entrar num mundo novo cujas regras se aprendem e compreendem apenas “no terreno”. Há quem mergulhe de cabeça e quem parta com preconceitos.

Seja qual for o caso e as motivações de quem o faz, há algo que a “voz da experiência” aconselha a todos os “newbies”, ou seja novatos na matéria, calma e cautela. Tal como referem, é preciso ter em conta que ainda que se trate de um meio diferente, as relações virtuais se constroem à semelhança das criadas na vida real.

Ainda que geralmente, e salvo nos raros casos em que ambos os utilizadores possuem uma webcam ou um microfone, não se possa ver a expressão do rosto, captar as inflexões de voz e os vários movimentos corporais que nos permitem descortinar as intenções do interlocutor, existem outros processos, característicos deste meio, que o permite. Prontidão da resposta, pontuação, contradições e até os “smiles” utilizados são alguns dessas formas de validação do discurso “online”.

Ultrapassado este obstáculo inicial de adaptação, assume-se uma posição mais ou menos céptica face às relações que se quer ou não criar e que podem ser de todo o tipo, da amizade ao namoro, passando pela adopção e podendo até mesmo acabar em casamento ou sexo. Virtual, ou nem por isso.

Acontece que, e tal como nos recordam diversos adeptos da “virtualidade”, à semelhança do que se passa no “mundo real”, existem pessoas de todos os tipos, origens e feitios. Como tal, conclui Maria, a professora de biologia brasileira que conheceu o seu marido num “chat”, “há relações que resultam e outras que fracassam. O que é preciso ter em conta, sobretudo quando as coisas correm mal, é que o problema não está no meio em si e sim em quem o frequenta. Afinal, não se costumam culpar os bares, restaurantes, discotecas ou outros locais que se frequenta pelo fracasso das relações, pois não?”

A Internet não é, tal como refere Rodrigo, “um mal em si”, mas “um instrumento como qualquer outro”. Conforme questiona Joana, namorada virtual de Rodrigo “se, de repente, contamos com uma "porta", que se abre da nossa casa, na qual podemos anonimamente penetrar sem riscos, encontrando do outro lado mil e uma pessoas interessantes, por que é que havemos de nos negar essa possibilidade?”

Mudam-se os tempos, mas as vontades permanecem, e com elas os “blind dates” e os arranjinhos”, agora com um novo nome: amor virtu@l.

13.11.05

Googol Google

>> "The Quest for the Holy Search Engine"

Todos os dias é utilizado por milhares de pessoas que, em todo o mundo, procuram respostas a questões mais ou menos complexas. Das “dúvidas existenciais” à “iluminação espiritual”, o Google já viu quase tudo –e sabe quase tudo.

Como num passe de mágica, a informação que procuramos torna-se mais próxima ao premir de um botão, geralmente em menos de 0,5 segundos. Das imagens ao som, de lojas a .pdf’s, este motor de busca permite-nos procurar um pouco de tudo de forma rápida, simples e eficaz.

Com interfaces disponíveis em cerca de 88 línguas diferentes e acesso via internet, telefone móvel ou pda, deu um novo significado à biblioteca universal de informação que pode ser a world wide web. Nasceu, cresceu e impôs-se no mercado numa época em que os analistas do sector tecnológico desaconselhavam o investimento na àrea, deixando para trás outros “gigantes” da busca. Hoje é um incontestado e “insatisfeito” líder mundial, bem como uma das poucas empresas que contribuiu para repôr o optimismo em Silicone Valley, durante o período de quebra do sector das novas tecnologias.

Se em 1999/2000 a maioria das empresas desta área começavam a questionar o optimismo dos cinco anos anteriores, o Google surge, enquanto empresa com capital privado, precisamente em ’99. Do dormitório e dos delírios de Larry Page e Sergey Brinn – dois estudantes pós-doutorados pela universidade de Stanford – o Google dava assim o “salto” para o mundo real. Fruto do esforço e financiamento não só dos seus “pais” como também dos pais propriamente ditos de Page e Brinn, amigos e familiares, os fundadores acabaram por conseguir assegurar 25 milhões de dólares para “concretizar” o seu sonho: “criar um motor de busca perfeito”.

Mas, afinal, o que é o Google, seis anos depois?

Se acedermos a www.google.com e inserirmos “google” como termo a pesquisar, obtemos cerca de 121.000.000 resultados em diversas línguas que nos são devolvidos cerca de 0,47 segundos após pressionarmos a tecla enter. A encabeçar essa longa lista temos, nada mais nada menos, do que o site do próprio google.

Lá encontramos não só um breve historial da empresa e a explicação da sua filosofia e àrea de actividade como a referência à sua auto-intitulada missão: “oferecer a melhor experiência de pesquisa na Internet ao tornar a informação mundial acessível e útil a nível universal”. Por detrás desta missão está, precisamente, o objectivo acima referido – criar um motor de busca perfeito – ideal comum não só a ambos os fundadores do Google como também a todos os seus funcionários.

De facto, e tal como nos dão conta variados artigos de Imprensa acerca desta empresa, bem como o seu próprio website, esta “obsessão” comum a todos os “Googlers” de servir cada vez melhor os seus utilizadores parece ser uma das principais chaves para o seu sucesso.

Assente numa filosofia de auto-insatisfação permanente, o percurso do Google tem sido o de uma surpresa, crescimento, aperfeiçoamento e capacidade de inovação quase constantes, fidelizando e conquistando cada vez mais utilizadores e, consequentemente, investidores.

A máxima “make it easy, make it fast, make it work”, aliada à “democrática” e, à época, inovadora tecnologia PageRank™, capaz de assegurar ao utilizador uma isenção na ordenação dos links correspondentes à sua busca, bem como a maior probabilidade de estes serem relevantes, marcaram a diferença num tempo em que a maioria dos motores de busca mais utilizados – como, por exemplo, o Altavista - não resistiam à “tentação” de vender os melhores “lugares” a empresas e webs interessadas e capazes de suportar financeiramente o custo de surgirem como primeiro resultado, de modo a obterem mais visitas.

Seis anos e inúmeros galardões depois, o Google continua não só a resistir a esta tentação e a outras – inserir publicidade não identificada dissimulada entre os resultados, inserir publicidade na página inicial… - como a inovar, criando novas formas de conciliar os seus interesses económicos com a necessidade de garantir a satisfação máxima do utilizador.

Surgem assim produtos como o Google AdWords ou o Google AdSense que, assentando ambos no critério da publicidade direccionada, permitem, respectivamente, a anunciantes promover produtos e serviços que se relacionem com os critérios de busca inseridos pelo utilizador, a webmaster assegurarem-se de
que os anúncios que surgem no seu site se encontram co-relacionados com o conteúdo do mesmo.

Características que não só permitem ao Google rentabilizar-se a si mesmo, como a anunciantes assegurar publicidade para “targets” específicos e a webmasters aumentar a rentabilização dos sites. Isto porque, ainda que a publicidade não agrade, regra geral, ao utilizador, esta se revela, neste caso direccionada e possivelmente útil, por se relacionar com aquilo que este procura.

Para além disso, surge sempre devidamente identificada, evitando uma sensação de “quebra de confiança” entre Google e utilizadores e contribuindo assim para a sua fidelização. Mas nem só de capacidade de inovação e insatisfação permanente vive uma empresa líder no seu sector. Sobretudo uma que tenha surgido em tempos de “crise” para a sua área. Ser um Googler implica, portanto, não só ser obcecado pelo seu trabalho e acreditar que cada bit pode fazer a diferença – e acreditam, é por isso que não só os contam compulsivamente como apostam num site de design tão simples, porque, tal como refere “os nossos utilizadores têm modems e pagam o download de cada bit que fazem” – como inúmeras outras coisas.

Qual o segredo, então, desta empresa cuja história parece igual à de tantas outras mas que, ao contrário da maioria deste sector, parece ter, até hoje, um “final feliz” e até mesmo superar os “gigantes” da busca como o Altavista que, quando o Google era apenas um sonho de Page e Brinn, já se encontravam enraízados no mercado? É dessa tentativa de transformar o próprio Google – que com os seus cerca de 2000 funcionários, 99 interfaces nacionais, escritórios em todos os continentes e acesso a 4.28 biliões de páginas, 880 milhões de imagens e 845 milhões de mensagens Usenet se aproxima cada vez mais da dimensão de um googol, termo matemático que lhe dá origem e que designa um número representado por um 1 seguido de 100 zeros - num termo de busca que surgem as regras que se seguem.

Estas são, precisamente, o resultado da tentativa de compreender o que transformou o Google num Googol do seu sector, bem como as linhas de acção que o tornam num caso paradigmático de sucesso.


1 – Tecnologia inovadora e simples

O Google tem feito uma aposta constante na inovação, introduzindo anualmente diversas novas tecnologias experimentais, muitas das quais, após essa fase de beta testing, acabam por ser aperfeiçoadas pela empresa com a finalidade de poderem ser introduzidas no mercado. Comum a todas elas é a presença de um princípio orientador democrático: são os utilizadores com o seu feedback, utilização e dowloads dessas tecnologias que determinam se estas devem ou não ser desenvolvidas pela empresa; bem como a simplicade dos seus interfaces – da qual é exemplo a homepage do motor de busca homónimo – que se revela acessível e apelativa não só para o “tecno-freak” mais convicto como para os “newbies” que se iniciam no mundo da web.

A já referida tecnologia PageRank é o paradigma da capacidade de inovação e democratização do processamento das buscas, garantindo a satisfação dos utilizadores e, através da combinação com as tecnologias AdWords e AdSense, também de publicitários, comerciantes e webmasters.


Estamos perante uma empresa que consegue, assim, estabelecer o frágil equilíbrio entre necessidade de capitalização dos seus produtos e não compromisso da satisfação do utilizador, apostando numa optimização constante dos métodos de realizar uma busca. O processo tornando-se assim cada vez mais fácil, rápido, específico e acessível, mesmo que longe de um computador, através da criação de plataformas wireless e para telefones i-mode, ou da introdução da Google NumberSearch, que torna mais simples aceder a dados através de telefones WAP.


>>> Principais Inovações Google/ano:

2000
  • Google ToolBar buscas a partir de qualquer sítio da web
  • Google DeskBar coloca caixa de busca do Google na taskbar do Windows, permitindo ao utilizador pesquisar sem aceder ao browser
  • Wireless Platforms e telefones I-mode para quando estamos longe de um PC
  • Google NumberSearch torna mais simples a introdução de dados em telephones WAP
  • 2001
  • Google PhoneBook pesquisar telefones e moradas publicamente acessíveis
  • Google Image Search pesquisar imagens
  • File Type Search pesquisa por tipo de documento
  • Google News Headlines pesquisar títulos da imprensa do dia
  • Google Catalog pesquisar e folhear mais de 1,100 catálogos de vendas por correio
  • Google Search Appliance funcionalidades do Google acessíveis a intranets empresarias e servidores web
2002
  • Google News update constante de informação proveniente das principais fontes noticiosas internacionais
  • Google Compute nova funcionalidade introduzida na ToolBar da Google que permite a utilização dos idle cycles dos computadores dos utilizadores para solucionar complexos problemas científicos
  • Google Labs utilizador pode aceder às mais recentes tecnologias google em desenvolvimento
2003

  • Google Viewer permite visualizar os resultados sob o formato de um slide show
  • Google WebQuotes incorpora citações retiradas de outros sites de modo a fornecer a opinião de terceiros acerda dos resultados da busca
  • Google Glossary novo campo de busca introduzido no google.com que permite ao utilizador pesquisar apenas definições para um termo específico
  • Search by Location permite procurar informação por localização geográfica
  • Google News Alert sistema de alerta automático por e mail que reencaminha para o utilizador as últimas notícias acerca dos tópicos subscritos por este
  • Google Deskbar software de patente livre que permite aos utilizadores efectuar pesquisas sem recorrer a um browser
2004

  • Personalizerd Search permite um maior grau de adequação dos critérios de busca aos interesses do utilizador e, logo, dos resultados, consoante o perfil individual deste.
  • Gmail serviço de e-mail com um gigabyte de armazenamento gratuito por endereço que inclui ainda um poderoso motor de busca que permite localizar e organizar mensagens com o mesmo assunto por ordem cronológica. Incorpora ainda a divulgação de publicidade direccionada, recorrendo à mesma tecnologia do serviço AdSense

2 – A Atenção e a Confiança do Utilizador são sagradas

São as duas áreas mais importantes porque:
Se se demorar demasiado a fornecer resultados
Se os resultados não forem confiaveis, porque obdecem, por exemplo a critérios de publicidade
Se a página incluir outro tipo de imagens e texto que sejam mais atraente
…o Google arrisca-se a perder a confiança e atenção dos utilizadores

Como tal é necessário atender às necessidades de utilizadores que são diferentes em todas as partes do mundo.

O Google aposta assim em critérios de flexibilidade de forma a ser capaz de responder correctamente tanto às buscas de turcos e finlandeses – que se assemelham a frases completas – como às dos japoneses – cujas palavras se seguem sem espaçamento entre si


Para além disso, têm ainda de conseguir “interpretar” não só o significado das palavras individuais como as relações existentes entre elas, e ainda as caracteristicas que estas apresentam enquanto objecto numa página (se aparecer em bold, por exemplo, provavelmente surgirá primeiro no “ranking” de resultados do que uma página em que o termo seja menos proeminente)


Para que os critérios “atenção” e “confiança” sejam cumpridos, torna-se ainda necessária uma preocupação constante com:

  • A velocidade dos resultados – “We count bytes” (Urs Holzle, engenheiro do Google in www.fastcompany.com)
  • E com o feedback – tanto com flutuações de tráfego como com os mails dos utilizadores (o Google tem 10 empregados a tempo inteiro cuja única função é ler, distribuir e responder a este tipo de correio)
Como tal a empresa apresenta um grau raro de compreensão e conhecimento dos seus utilizadores, o que contribui, entre outros factores, para a lealdade única dos mesmos.



3 – Mais vale fazer uma coisa bem do que muitas “mais-ou-menos”

Em vez de se expandir para inumeros outros sectores de actividade, à semelhança de outros “gigantes” da busca, o Google continua fiel à sua “obsessão” inicial: criar o motor de busca perfeito. E, para isso, só vale a pena diversificar as suas actividades se for dentro deste sector.

Procura, portanto, criar cada vez mais formas de realizar buscas cada vez mais precisas e libertas de todo o tipo de constrangimentos, de modo a satisfazer as necessidades de todo e qualquer tipo de utilizador, em qualquer lugar.

Sendo o mundo actual marcado por uma crescente mobilidade o Google tem apostado ,assim, em tecnologias, como por exemplo, o Google Number Search, que permitam aceder à informação através de PDAs, Telefones moveis ou até automoveis.



4 – O mundo é um gigantesco laboratorio

Através do Google Lab ou da introdução de “experiências” como o Google SmackDown – que nos permite comparar o volume de “Citações Google” para dois termos de busca em competição – e outras criações “excentricas” que, tal como esta ultima, integravam um “developer’s kit” lançado na Primavera 2002, o Google permite aos utilizadores integrarem o seu motor de busca nas suas aplicações pessoais. Sendo o licenciamento livre, estes podem portanto “fazer basicamente o que quiserem com esse código”, “(Nelson Minar, engenheiro sénior do Google in www.fastcompany.com)”

O Google permite assim, contrariamente à maioria das empresas similares, o livre manuseamento de grande parte do seu “capital intelectual”. Uma clássica estrategia de “trojan horse” que permite colocar o motor de busca em locais onde, muito provavelmente, a empresa em si nunca se lembraria.


Em vez de ter “apenas” os seus cerca de 2 mil trabalhadores a pensar para ele, o Google tem portanto um enorme “research and development lab”, aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana, no endereço www.google.com/lab, graças à energia dos seus incontáveis utilizadores. Se, por um lado, estes se passam a sentir envolvidos no processo de criação e se estabelece uma maior relação de proximidade entre estes e a empresa, por outro lado, esta benificia do acesso constante a “feedback” cuja análise cuidade lhe permite saber de antemão quais são as boas ideias que são, efectivamente, boas ideias com futuro.




5 – É preciso aprender a fracassar

Como já foi referido, no Google Labs, qualquer pessoa pode testar inumeras inovações em desenvolvimento, como por exemplo, o Google Viewer ou o Google Voice Search. Esta ultima, que nos permite realizar uma busca por telefone e verificar os resultados online, dificilmente funcionará como seria esperado. Mas não é a única. Acontece que, de facto, nem é esse o objectivo.

Ou seja, nem todos os projectos presentes neste laboratorio virtual seram realmente aperfeicoados e implementados. O laboratorio representa, no fundo, um “ethos” partilhado entre o Google e os seus utilizadores, o que não só permite e incentiva a experimentação publica – e logo acesso a feedback que lhes permite saber quais os produtos em que realmente devem apostar – como também contribui para a fidelização e satisfação dos utilizadores, ao envolvê-los no processo.




6 – Para ser o melhor é preciso contratar os melhores

Se há coisa em que o Google dispende tempo, é no processo de contratação tal como comprovam os registos que a empresa mantem destes processos. So em 2002, a empresa dispendeu cerca de 87 horas na selecção de cada um dos cerca de 300 empregados contratados.

Os seus funcionários são maioritáriamente Engenheiros, que respondem a dois tipos de perfis:

  • Jovens com espirito de iniciativa – que “procuram sempre ir mais longe”, “trabalham fora de horas” (Wayne Rosing, engenheiro sénior do Google, in www.fastcompany.com)
  • “Estrelas” – os melhores PhD’s dos melhores laboratorios de pesquisa informatica e programas universitarios. De acordo com a empresa, esta tem conseguido contractar cerca de 90% dos melhores profissionais do sector.
Os PhD’s são, de facto, uma marca de identidade da empresa. São eles que pelo seu grau de conhecimento sabem o suficiente para pôr cobro a ideias destinadas a falhar antes que nelas se invista demasiado.

Entre a “sabedoria” destes e a capacidade de inovação dos primeiros, o Google consegue assim manter um equilibrio entre risco e precaução que lhe permite não só estar na vanguarda como também manter-se nela.


Para além disso a empresa aposta numa lógica de funcionamento democrática e de auto-responsabilização:

  • A maioria dos engenheiros Googlers trabalha em equipas de três, possuem liberdade e independência suficiente para resolver problemas existentes sem que para isso necessitem de autorização ou ordem prévia.
  • A liderança destes grupos é rotativa de modo a desenvolver em todos o espirito de iniciativa e capacidade de auto-gestão.

7 – Se houver utilizadores, também haverá dinheiro

No Google não existe planeamento de departamento estratégico ou uma lista de tecnologias a desenvolver decretada pelo CEO Eric Schmidt. O processo de inovação, criação e desenvolvimento de novos produtos obdece, pelo contrário, a uma lógica “democrática” de “baixo para cima”.

Ou seja, são os utilizadores e o seu feedback que, como já foi referido, determinam, através de estatisticas de acesso e utilização, as àreas e produtos a desenvolver. Mesmo que inicialmente, não se encontre forma de os rentabilizar.


Isto porque o Google acredita que se os serviços tiverem utilizadores, a sua própria evolução encarregarse-à de originar novos nichos de mercado e logo formas de os tornar lucrativos.



Estamos perante uma empresa onde desenvolver e implementar tecnologias que não ofereçam lucro imediato é uma lógica aceite e, até mesmo inerente, ao seu regular funcionamento. Exemplo disso mesmo é o facto de, nos seus primeiros 18 meses de existência, o Google não ter lucrado um único cêntimo com o seu motor de busca. Só após esse periodo e uma vez fidelizada a audiência é que a empresa se preocupou em realizar a transição de “grande tecnologia” para “grande tecnologia com uma massa critica significativa de utilizadores”. E só ai se preocupou em rentabilizar esse tráfego estável, criando formas inovadoras de fazer publicidade, mantendo o serviço totalmente gratuito para o utilizador.

Actualmente, a lógica de actuação mantém-se a mesma, como demonstra o recente caso do desenvolvimento da tecnologia GoogleNews: primeiro preocuparam-se em verificar, através da monotorização dos acessos, se este de facto atraia e retia a atenção das “pupilas” dos utilizadores e só depois em arranjar uma forma de capitalizá-la.









Bibliografia

>> Site Oficial da Empresa:
o www.google.com

>>Artigos de fundo sobre o Google:
o www.nytimes.com/2004/04/29/business/29GTIMELINE.html - timeline do Google pelo NYTimes
o www.fastcompany.com/magazine/69/google.html - artigo da revista Fast Company da autoria de HAMMONDS, Keith
o www.forbes.com/forbes/0526/100_print.html - artigo da revista Forbes da autoria de HARDY, Quentin

>>Notícias e Informações várias sobre o Google:
o http://idgnow.uol.com.br
o http://informatica.terra.com.br/ebusiness/interna -
o www.hoovers.com/google
o www.websearchworkshop.co.uk/google-history.htm

>>Informação sobre outros motores de busca
o http://docs.yahoo.com
o http://pt.altavista.com
o www.websearchworkshop.co.uk/lycos-hotbot-history.htm
o www.websearchworkshop.co.uk/altavista-history.htm
o www.websearchworkshop.co.uk/fast-history.htm
o www.websearchworkshop.co.uk/inktomi-history.htm
o www.websearchworkshop.co.uk/teoma-history.htm
o www.websearchworkshop.co.uk/engines.htm