9/11 - do World Trade Center à World Wide Web
>> 9/11 – do
Tal como refere Braudel[1], o facto de o simples mencionar de uma data acarretar consigo já toda uma carga simbólica, ao ponto de dispensar qualquer referÊncia adicional por forma a assegurar o correcto entender do acontecimento a que se refere, revela já o seu potencial significado enquanto efeméride ou marco histórico inquestionável.
Mais do que uma data, o 11 de Setembro, posteriormente reforçado pelo 11 de Março, trouxe consigo o despertar abrupto e a reflexão forçada acerca de algumas das mais profundas mudanças que se têm vindo a operar na sociedade e no mundo, desde o advento do início da globalização. As distâncias encurtaram-se, as trocas deslocalizaram-se e as relações reformularam-se, tanto no âmbito pessoal, como no transnacional, evoluindo ao ritmo célere da busca da rapidez e do simultâneo, pedra de toque da contemporaneidade.
O realismo político cedeu temporáriamente –e no mundo ocidental – lugar a um novo fôlego de esperança num liberalismo político, alimentado pelo inquestionável alargamento dos actores políticos a agentes não tradicionais, como uma emergente sociedade civil transnacional, mais reivindicativa e empowered, pelo acesso à informação e uso das NTIC.
A política exclusivamente internacional – entre nações, entre estados soberanos - pavimentada pelas auto-estradas da informação e comunicação tornou-se global, e a arena de agentes tradicionais tornou-se do tamanho desse mesmo globo, alargando-se a ONG’S, associações transnacionais, supranacionais ou regionais.
Da U.E. à N.A.T.O, do Greenpeace à Al-Qaeda, todos se tornam actores, formais ou informais, numa mesma sociedade que se retribaliza, tal como previa McLuhan, numa aldeia global. As “regras” implícitas que a governam e sustentam dificilmente poderão ser, portanto, as mesmas. Seja no plano social, económico, político ou até militar e terrorista.
O que nos leva de encontro à posição de Ignacio Ramonet, que numa das edições do Le Monde Diplomatique póstumas à referida data, defendia que o mundo, de facto, não tinha mudado naquele dia. A única mudança que se tinha, efectivamente, operado, ocorrer ao nível da nossa – e aqui leia-se ocidentais – percepção do mundo. Da nossa mundividência. Porque a mudança que se operara no sentido da retribalização numa aldeia global, acompanhada de todas as outras nos campos político, social, económico etc., já se vinham a desenrolar ao longo do tempo, desde o acima referido advento da era global.
E se, o 11 de Setembro, constitui de facto, conforme acima referi, um momento de “despertar abrupto” para uma “reflexão forçada”, quatro anos depois, essa necessidade mantém-se em diversos sectores da sociedade. Sobretudo no que toca aos novos actores políticos e formas de confronto e reivindicação, entre os quais podemos incluir grupos como a Al Qaeda de Bin Laden. Porque, ainda que o fenómeno do chamado “terrorismo em rede” ou mesmo “netwars”[2] não se possa, a meu ver, considerar ter emergido após o “9/11”, correspondendo antes esta data a um momento de confronto inevitável com a realidade da sua existência prévia, dada a sua natureza furtiva, estrutura não formal e propósitos ilegais, permanece ainda de difícil compreensão.
Compreensão sem a qual a definição de linhas de acção de prevenção e antecipação adequadas, de readaptação dos estados formais a esta “inimigo” não formal, não poderá decorrer no sentido da prossecução de resultados óptimos. Compreensão essa que urge sobretudo após o impacto e “sucesso” – do ponto de visa dos perpretadores - alcançados pelos acontecimentos ocorridos em datas como o 11 de Setembro e o 11 de Março, factores que, juntamente com a sua ampla cobertura mediática – assegurada em grande parte pela sua adequação aos critérios orientadores de agendamento do sector – só podem contribuir para a reprodução dos modelos de organização que estiveram na sua origem, aumentando o número de actores deste tipo no panorama político mundial.
Hoje, mais do que nunca, o terrorismo está, de facto, “retribalizado” – empregando novamente o termo de McLuhan – readaptando à contemporaneidade da globalizada era da informação, que coloca à sua disposição a facilidade de acesso à informação e de comunicação deslocalizada e atemporal, a capacidade agregadora e critério de unidade de accção e ideológica da “tribo”[3]. Mais do que guerrilhas ou núcleos terroristas individuais ou desorganizados, estamos hoje, e no caso de organizações como a Al Qaeda, perante aquilo que se poderá talvez optar por chamar “tribos em rede”.
Mas o que é a tribo?
A tribo corresponde à mais antiga e bem sucedida forma de organização alguma vez definida, segundo James Boyd, um dos principais teóricos militares. Tendo por objectivo criar um sentido de identidade social, fortalece a capacidade de sobrevivência e habilidade de acção não só do indivíduo como do todo. Variando no que toca à natureza da sua origem, determinada pela natureza dos laços que as unem – tradicionais:laços familiares/mitologia; tribos fabricadas:promovem a irmandade e criam a sua própria mitologia – orgânicamente são tradicionalmente caracterizadas em três tipos.
- equalitárias – todos os membros da tribo são semelhantes, sendo a ordem mantida com base no respeito mútuo, rituais e honra
- segmentárias – cada secção da tribo é similar às outras, podendo operar de forma autónoma entre si, se necessário
- acéfalas – não existe uma hierarquia, sendo os idosos, “poderosos” ou outros encarados mais como conselheiros ou modelos a seguir do que como líderes
Comum a todas elas, no entanto, e segundo o teórico referido, bem como na opinião de analistas contemporâneos, é o facto de as tribos, uma vez envolvidas em conflitos – que têm na sua origem questões de honra, respeito ou afirmação, desempenhando a religião, em muitos dos casos, um papel importante – lutarem não de forma coesa, como um todo, mas de modo segmentado. Cada segmento, ou célula, actua de forma autónoma de modo a potenciar o efeito de ataque sobre o oponente recorrendo, regra geral, a tácticas furtivas, como embuscadas e “raides”, procurando potenciar sempre o efeito surpresa.
Posto isto, e tendo em conta que “we are facing an emerging mode of conflict (and crime) at societal levels, short of traditional military warfare, in which the protagonists use network forms of organization and related doctrines, strategies and technologies attuned to the information age [and that] these protagonists are likely to consist of dispersed organizations, acting like coordinated tribes who communicate, coordinate and conduct their campaigns in an internetted manner”, e que entre estes novos protagonistas “nonstate or even stateless”[4] podemos incluir não só activistas de ONG’s, por exemplo, como também grupos criminosos e terroristas, creio que, e perante as três categorias caracterizadoras das tribos existentes, será necessário criar uma nova classificação organizacional para o que o relatório de 2000 do U.S. State Department’s Office of the Coordinator for Counterterrorism[5] definia como “trend into the shift from well-organized localized groups supported by state sponsors to loosely organized, international networks of terrorists”.
O autor de “Networked tribes” propõe-nos, no seu artigo, da adopção do termo homónimo, com base na rede como nova categoria organizacional. Segundo o mesmo, o tribalismo que enfrentamos hoje em dia resulta de uma combinação dos antigos enquadramentos mentais das tribos, com os modernos sistemas de pensamento (economia global, redes, comunicações etc). Uma combinação a seu ver perigosa e reforçada pelas forças da globalização – que defende, tal como eu fiz acima, ter vindo nivelar a arena de competição entre tribos e estados.
No entanto, e se esta sua análise me parece correcta, bem como a sua ressalva, em jeito de aviso, acerca do poder global e sucesso económico alcançado por estas redes – este último em grande parte conseguido pelo recurso à especulação bolsista e outros mecanismos característicos da economia liberal como nova forma de financiamento por parte destas tribos em rede – creio que, tal como referem Ronfeldt e Arquilla[6], e ainda que o aspecto orgânico seja um dos critérios mais determinantes no que toca a esta nova forma de tribos, o critério criado para as caracterizar deve ir para além disso, uma vez que estas são determinadas também pela sua particularidade no que toca a outros métodos de análise das formas de organização social.
Ou seja, para estes analistas, as redes ou “tribos em rede” só são, de facto, redes organizacionais, quando observam também outros critérios ou características. É que, “ainda que a guerra em rede [netwar] seja, principalmente, uma dinâmica organizacional, requer também uma dinâmica social e tecnológica apropriadas, de modo a funcionar correctamente”[7]. Como tal, no analisar das “networked tribes” ou da “netwar” e seus intervenientes, alertam para a necessidade de utilizar como grelha:
- critérios da social network analysis – disciplina que defende que as relações sociais bem como organizacionais devem ser analisadas como redes, ou seja, como um conjunto de actores (nodes) e laços (links) cujas relações apresentam um padrão estrutural. Os principais padrões considerados por este método de análise são: hub, estrela e circular/roda, entre outras, como centro/periferia, “all channel” ou “spider’s web”
- o factor determinante de “poder” e “importância” nesta perspectiva depende portanto mais das relações interpessoais (capital social) do que dos “atributos” ou “características/qualidades” individuais de cada um dos membros da rede (capital humano)
- critérios de organizational network analysis – utiliza muitos mecanismo e métodos do modelo de análise anterior mas utilizando uma abordagem diferente, ao propor, em muitos casos, a rede como uma forma distinta de organização que tem vindo a ganahr força devido aos avanços das comunicações. Enfatiza não só a importância que os valores e normas desempenham na performance e funcionamento das redes e noutras formas de organização, mas também, em alguns autores, como Castells, o facto de as redes estarem a proliferar e ganhar forma como tipo específico de organização.
Tendo esta análise bilateral em conta, os mesmos autores propõem assim uma outra grelha de análise composta de cinco níveis, essenciais para o assegurar do funcionamento óptimo de qualquer tipo de rede, e que posteriormente aplicam, precisamente, à organização responsável pelo 11 de Setembro: a Al Qaeda [vide analise]. São eles:
- nível organizacional – o “design” orgânico e organizacional da rede
- nível narrativo – a “história” que essa rede conta
- nível doutrinário – as estratégias e métodos de colaboração
- nível tecnológico – os sistemas de informação usados
- nível social – os laços pessoais que asseguram lealdade e confiança
Método de análise este através da qual os autores procuram criar um mecanismo que assegure uma real compreensão global e transversal das “tribos em rede”, actores o fenómeno ao que dão o nome de “netwar”. Compreensão que, conforme inicialmente referido, e também de acordo com os autores, se torna cada vez mais premente, dado que “practice has been outrunning theory in one are after another where netwar is taking hold”. E de modo a assegurar aos actores tradicionais a capacidade de se readaptarem e fazerem frentes ao que os autores denominam “lado negro” da “netwar” – fenómenos como as tribos em rede de cariz terrorista, por exemplo, âmbito no qual se enquadram a Al Qaeda e o 11 de Setembro – urge, antes de mais, que a teoria e o formal – os estados e as suas formas de actuação – acompanhem, até para quem sabe, mais tarde, poderem antecipar, o que entre as tribos em rede já é hoje prática e método corrente e vulgar.
No entanto, convém lembrar, tal como fazem Ronfeldt e Arquilla que este fenómeno da “guerra em rede”, poderá trazer também aspectos positivos, no sentido do alargamento dos actores políticos também a grupos como a sociedade civil, no sentido do empowerment dos cidadãos. Empowerment e alargamento esses que, quando orientados para contestações ditas “positivas”, como exposição de problemas ecológicos, etc, poderão ser determinantes para o melhorar da sociedade e essenciais À própria essência da democracia, pedra de toque dos valores ocidentais.
Ou seja, aqui, tal como na referência de Castells à Internet, convém relembrar que a tecnologia [tal como a rede enquanto forma de organização social] não é boa nem má per se, dependendo o seu carácter benigno ou maligno do uso que a Humanidade dela faça.
[2] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”
[3] “networked tribes” conforme consultado a 4 de Dezembro em http://globalguerrillas.typepad.com
[4] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”
[5] “Patterns of Global Terrorism:1999”, U.S. State Department’s Office of the Coordinator for Counterterrorism, Abril de 2000
[6] RONFELDT, David e ARQUILLA, John, “Networks, netwars and the fight for the future”
[7] op cit